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Sétimo debate de filmes das mostras competitivas analisa a recontextualização de material de arquivo

26.9.2016
Sétimo debate de filmes das mostras competitivas analisa a recontextualização de material de arquivo

Os filmes discutidos no primeiro debate da manhã de segunda-feira do 49º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO tinham em comum o dispositivo de fazer uso de imagens de arquivo. O curta paulista Procura-se Irenice, de Marco Escrivão e Thiago B. Mendonça, volta às décadas de 1960 e 70 para tentar encontrar os rastros de uma atleta, Irenice Rodrigues, cuja trajetória sofreu um processo de apagamento na história brasileira. Confidente, produção carioca assinada por Karen Akerman e Miguel Seabra Lopes, é um ensaio poético construído a partir de imagens de arquivo de 900 filmes. Já Vinte Anos, de Alice de Andrade, é documentário que mostra histórias de amor de três casais cubanos, filmadas ao longo de duas décadas.

 

Para o realizador português Miguel Seabra Lopes, a narrativa de Confidente, criada com imagens que se repetem em ritmos que se alternam, conta a história de um filho que vai embora e de uma mãe que entra em luto. E a pulsação do filme procura refletir o pensamento esquizofrênico. “Em entrevistas que fizemos, percebemos que uma pessoa esquizofrênica é capaz de contar a mesma história várias vezes, sempre de forma diferente. Quisemos salientar a interferência da memória sobre a realidade”.

 

O curta é resultado de pesquisas feitas pelos realizadores no Arquivo Nacional e no CTAV – Centro Técnico Audiovisual ligado ao Ministério da Cultura. E a imersão neste material revelou a forma como o passado é tratado no Brasil. “É assustador como as coisas são maltratadas aqui. Nunca há recursos para nada. Eu tive pesadelos com os presidentes do Brasil, sempre em inaugurações e agora está tudo acabado”, revela Miguel Seabra Lopes. Karen Akerman acrescenta: “Vimos também como tinha cineasta fazendo coisas boas naquela época. Havia um cuidado impressionante com a qualidade das imagens. A maior parte dos filmes que gente usou foi assinada por Humberto Mauro para o INCE (Instituto Nacional de Cinema Educativo)”.

 

Procura-se Irenice vai atrás dos poucos rastros deixados na história pela atleta Irenice Maria Rodrigues, recordista dos 800 metros que, por liderar um movimento de protesto contra o autoritarismo do CND – Conselho Nacional de Desportos, foi banida do esporte brasileiro. O curta se constrói sobre poucas fotografias e depoimentos de colegas e familiares. “A realidade do filme é a escassez de material. Foi uma saga de descoberta”, conta um dos diretores, Marco Escrivão. Ele comenta o “processo de apagamento” que a memória de Irenice sofreu pela ditadura militar: “A gente sabia que teria que fazer uma elaboração simbólica em cima disso. O processo de pesquisa já foi o processo de filmagem”.

 

O relato documental do curta-metragem só é quebrado pela presença poética da bailarina Kanzelumuka. A participação desta personagem foi inspirada, segundo do diretor Thiago Mendonça, no filme Alma no Olho, que Zózimo Bulbul dirigiu em 1973. “Esse filme pra mim é uma pérola. Ele (Zózimo) falava que era uma tentativa de abordar a diáspora no cinema. E a gente tentou chegar aí e reconstruir uma identidade apagada”.

 

De acordo com Thiago Mendonça, o material ao qual os realizadores tiveram acesso era composto apenas de cinco artigos do Jornal do Esporte. “Ela foi recordista sul-americana durante muitos anos, passou por vários clubes e não havia um registro sequer disso, o que nos faz acreditar que houve um processo de apagamento premeditado. A partir de 1971, quando ela foi banida do esporte, não há mais nenhuma informação sobre Irenice, nem por parte dos parentes. É bastante simbólico desde período”.

 

FLUXO DA VIDA

 

Em Vinte Anos está a história de três casais de cubanos flagrados pela diretora Alice de Andrade em 1992 e depois reencontrados em 2012 – com trechos filmados também em 2014 e 2015. Mas além de desenhar a trajetória de vida dos personagens, o filme apresenta as próprias alterações da vida em Cuba ao longo do período, com o esfacelamento do que os habitantes da ilha chamam de “campo socialista” e a abertura para o ocidente. “É um filme cujo processo foi totalmente intuitivo, pessoal, que tem dimensões que eu ainda estou descobrindo hoje”, confessou a diretora.

 

A relação de Alice de Andrade com Cuba nasceu em 1978, quando foi fazer um curso na ilha, sob o incentivo de seu pai, o grande cineasta Joaquim Pedro de Andrade. “Tive a sorte de conhecer Cuba nesta época. Era incrível! Era um país feliz, com tudo funcionando, as crianças de sete anos de idade tocando Mozart na escola. Foi uma lufada de vida no momento em que eu tinha acabado de perder meu pai”, conta a realizadora. Depois, Alice retornou à ilha como estudante do ICAIC – Instituto Cubano del Arte y Indústria Cinematograficos, em 1990. Foi quando teve a ideia do filme. “No meu contato com a realidade cubana, descobri o ritual socialista dos casamentos, que existe até hoje”, lembra. “O governo cubano garantia a quem se casasse caixas de cervejas, de rum, dois dias de lua-de-mel em um hotel turístico. Era a oferta de uma bolha de felicidade, uma coisa muito emblemática, muito confusa entre a austeridade e o luxo”.

 

Segundo revela Alice de Andrade, havia um roteiro pré-estabelecido e a diretora iniciou o processo de casting com 40 casais. A pesquisa rendeu o curta Luna de Miel, de 1993. 17 anos depois, a realizadora retornou a Cuba já com a opção pelo que ela chama de “dispositivo de guerrilha”: “Fiz uma opção pelo não-roteiro, pelo não-planejado. O principal pra mim era ter casais que me interessavam e eram bons. Agora, pretendo trabalhar com este material todo e fazer uma série com a história destes 40 casais”.

 


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