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Sexto debate de filmes das mostras competitivas esquenta mais o clima do Festival

25.9.2016
Sexto debate de filmes das mostras competitivas esquenta mais o clima do Festival

Vários antropólogos, indigenistas e professores de antropologia se misturaram à plateia habitual dos debates do FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO, no final da manhã de domingo, para discutir o longa-metragem Antes o tempo não acabava, produção do Amazonas, assinada pelos diretores Sérgio Andrade e Fábio Baldo. O filme esteve em foco ao lado de Abigail, curta-metragem do Rio de Janeiro e Pernambuco, dirigido por Isabel Penoni e Valentina Homem, em debate mediado pelo jornalista mineiro Marcelo Miranda.

 

A presença de especialistas na questão indígena no debate já era esperada, uma vez que o filme Antes o tempo não acabava aponta para temas polêmicos e bastante complexos, como a homossexualidade entre índios, o infanticídio, a luta entre tradição e modernidade, dentre vários outros.

 

Mas também o curta Abigail toca no tema, ao apresentar a personagem Abigail Meirelles, mãe do sertanista Apoena Meirelles e uma das pessoas que participaram do processo de pacificação dos índios Xavantes, comandada na década de 1940, por Francisco Meirelles, com quem foi casada. “A participação dela neste processo apareceu depois de algum tempo que já estávamos amigas. Nós nos conhecemos quando ela entrou num ensaio do qual eu participava. Estávamos cantando músicas de candomblé e ela chegou se apresentando como filha de Obaluaê e Iansã. Eu também estava me iniciando no candomblé e nós nos aproximamos por aí”, conta Isabel Penoni. Para a diretora, o que despertou seu interesse de imediato foi a capacidade de dona Abigail articular referências muito díspares, o que é apresentado a partir da casa em ela que vivia e que é retratada no filme. “Ela se juntou a Francisco (Meirelles) quando tinha 15 anos de idade. Os processos de pacificação são muito violentos, mas ela extraiu daquilo tudo uma experiência muito distinta. Ela transitava pelo invisível da floresta e do candomblé”.

 

Abigail levou nove anos para ser realizado. “O filme foi sendo feito em etapas”, afirma a diretora Valentina Homem. “Há dois anos, voltamos e filmamos a casa vazia. Ela morreu no meio do processo de filmagem, o que foi fundamental para a forma como o filme se conduziu”.

 

Longa-metragem que apresenta o personagem Anderson, um jovem Tikuna habitante da periferia de Manaus que se contrapõe às tradições de seu povo, buscando adaptar-se à vida das cidades, Antes o mundo não acabava dividiu opiniões e se mostrou o filme mais polêmico desta 49ª edição do FESTIVAL DE BRASÍLIA até o momento.

 

Nascido e criado em Manaus, o diretor Sérgio Andrade afirmou que a ideia do filme surgiu de sua própria observação das populações indígenas que vivem na periferia de Manaus e do contato com alguns índios durante produções anteriores. Ele fala: “Sempre me intrigou o habitante indígena que vem para a cidade. Como se fala no filme, “uma cobra, não importa se veio do Japão, será sempre uma cobra”, o índio que vive nas cidades vive também as angústias do habitante das cidades”.

 

O filme apresenta o personagem Anderson ainda criança em um ritual de iniciação tikuna conhecido como Tucandeira, no qual as mãos dos jovens que estão saindo da infância e entrando na adolescência são inseridas em luvas de palha cheias de formiga. Sobreviver à dor das picadas é ritual de passagem para o futuro guerreiro. Depois, vamos encontrar o personagem já adulto, vivendo na cidade e trabalhando numa fábrica da Zona Franca de Manaus. Anderson divide a casa miserável com a irmã, mãe de uma menina (aparentemente vítima de algo como paralisia cerebral), em luta contra os pajés da comunidade, que querem sacrificar sua filha em nome do futuro de seu povo. O que acaba acontecendo.

 

Em sua trajetória, Anderson (que é vivido pelo índio Anderson Tikuna) parte para experiências que levarão a algumas descobertas pessoais, como a homossexualidade. Percebendo que o jovem está confuso, os líderes indígenas decidem fazê-lo passar novamente pelo ritual do passado.

 

Para a antropóloga Patrícia de Mendonça Rodrigues, a forma como temas como o infanticídio e a homossexualidade são abordados no filme gera atrasos na luta pelos direitos dos índios. Em texto que escreveu após ver o filme e que fez questão de ler no debate, ela chama a atenção para o fato de que, pela forma como abordam estes temas no filme, os diretores oferecerem munição para as bancadas mais retrógradas do Congresso Nacional. Os realizadores discordaram: “No momento em que você coloca um índio protagonizando um filme gera ruídos que perpassam questões ideológicas, sociológicas, antropológicas. A gente está trazendo uma construção de personagem com o psicológico muito profundo e a vivência dele entre a floresta e a cidade”, argumenta Fábio Baldo. E Sérgio Andrade complementa: “A figura do índio está muito próxima do ser mitológico ainda. Mas a gente quis mostrar o índio dentro da realidade urbana. Como ele reage, com os preceitos da cultura dele, à cultura branca. O índio como mentalidade humana e não como refém de uma cultura”.

 

De acordo com outros indigenistas que se manifestaram no debate, a questão que preocupa é o fato de o filme tocar de forma genérica em temas como a atuação de ONGs na região (o personagem diz não confiar nelas), homossexualidade (na maior parte das etnias não há qualquer discriminação ao homossexual e, no filme, o pajé diz que vai ajudar o personagem a sair de seu problema) e o infanticídio (prática das etnias nômades, que sacrificavam as crianças doentes em nome dos deslocamentos mais rápidos da comunidade). Mas a atriz Rita Carelli, que atua no filme e faz preparação de ator, acredita que o filme critica a opressão da vida urbana. “O personagem está num momento de equilíbrio delicado. Se os índios já sofrem um processo de invisibilidade, imagine então os índios urbanos!”, destaca ela. “O filme tateia, provoca, se coloca nesse lugar de risco”.

 

Partiu de Daiara Tukano a análise definitiva da questão: “A nossa transformação somos nós que conduzimos, não é o antropólogo, a ONG, o cineasta branco. Nós também estamos no Século XXI e queremos procurar pontes para deixar esse espaço de violência que marca nossas relações com o branco”, afirma. Educadora e mestre em Direitos Humanos, Daiara informou que as mulheres das novas gerações de várias etnias indígenas têm sido responsáveis por renovar o espaço da tradição e recuperar costumes e histórias: “Eu peço a iniciação, quero participar dos rituais, manter as tradições de nosso povo, aceitas as alteridades. Precisamos mesmo debater para construir e fortalecer a identidade indígena”.

 

 

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