NOTÍCIAS

SEMINÁRIO DISCUTE OS CAMINHOS DO CINEMA NEGRO NO BRASIL

25.9.2016
SEMINÁRIO DISCUTE OS CAMINHOS DO CINEMA NEGRO NO BRASIL

O Seminário Produção Audiovisual, Identidade e Diversidade – Um olhar dos Realizadores Afrobrasileiros e Indígenas sobre o Cenário Brasileiro Audiovisual foi a mesa com maior número de participantes até o momento no 49º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO. Na primeira parte do seminário, realizadores negros de diversos estados do Brasil se reuniram na tarde de sábado no Hotel Kubitscheck Plaza para debater os caminhos do cinema negro no Brasil e traçar possíveis trilhas para o aumento da produção e distribuição dos filmes feitos por artistas negros.

Viviane Ferreira, representante da Odun Produções e produtora do curta-metragem Dia de Jerusa, localizou a trajetória do cinema negro em uma linha histórica. “Zózimo Bulbul foi quem olhou para o Cinema Novo, percebeu que existia uma abordagem da questão negra no Brasil, mas percebeu também que ainda não havia uma representação negra nas telas de cinema. Depois de Joel Zito Araujo estudar, dentro da academia, a invisibilidade negra e fazer filmes que tratassem do tema, nos anos 1990, aparece o Jefferson De, provando que ‘Nós podemos fazer cinema por nós mesmos’”, definiu a produtora cinematográfica. “Eu sou herdeira de Zózimo Bulbul. Não sou herdeira de Mário Peixoto (diretor de Limite)”, define-se a jovem realizadora.

Diego Paulino, cineasta e ativista do interior de São Paulo, começou a produzir cinema durante a graduação em audiovisual feita na Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR). Apesar de estar em um meio acadêmico, o jovem cineasta encontra dificuldades extremas para realizar o cinema de viés negro que vem realizando. “Eu sou cotista, comecei a tratar a representatividade dentro da Universidade. Nós passamos a nossa vida inteira assistindo a filmes sobre a vida da classe média branca. Só pode ter um filme de preto, só pode ter um, mas feito por brancos de classe média para ser visto por outros brancos de classe média. Nós precisamos criar outros espaços, nossos espaços de cinema negro para sermos vistos. Estou enjoado de ver histórias brancas na sala escura”, reflete. 

A realizadora Sabrina Fidalgo discorreu sobre o modelo de cinema, que exclui os realizadores negros em todos os estágios, seja na produção quanto na exibição. “Os programadores, os júris de festivais, as pessoas envolvidas nesses processos seguem o modelo pós-colonial, que é gerido por homens, brancos, heterossexuais e cis. Eles comandam e privilegiam os filmes que seguem a mesma linha de pensamento. Eles nem se dão conta da repetição dessas estruturas. Normalmente, não se vê nenhum filme de narrativa negra dentro da competitiva. O projeto de fazer cinematográfico no Brasil deveria ser amplo e democrático. Na verdade é excludente, racista e misógino. Nós realizadores negros vivemos neste estado de enfrentamento constante”, acredita a realizadora.

Foi pensando na lacuna de distribuição de filmes de realizadores negros que a cineasta Yasmin Thainá criou a Afroflix, uma rede de exibição de películas e séries disponibilizadas na internet. “Abrimos as inscrições para a Afroflix e recebemos mais de 300 inscrições. Muitas pessoas do norte do país e de outros lugares estavam produzindo e nós nunca tínhamos ouvido falar. Existe uma produção grande que não encontra espaço de exibição. A ideia que os cineastas negros fazem um filme por década é errônea Se a gente pensa em novas formas de democracia, a gente precisa pensar em representação de todos os setores da sociedade. Não existe inclusão completa da sociedade brasileira sem os negros e índios”, refletiu.

Além de versar sobre a questão da negritude na tela, a mesa lançou provocações sobre a diversidade sexual dentro do cinema negro. A participação da trans ativista, LaBella Rainbow foi importante para pontuar essa questão, quase um tabu dentro da comunidade negra. LaBella é curadora e produtora do Festival de Cinema da Diversidade For Rainbow, realizado há dez anos em Fortaleza.  “A gente precisa se atrever mesmo. Temos de ser atrevidos para vermos as populações negras e trans na tela”, reconhece a ativista.

O debate foi mediado pelo cineasta paulistano Jeferson De, um dos criadores do Dogma Feijoada e responsável pela popularização dos filmes negros a partir da década de 1990.

 

 

 

Outras Notícias

Tag3 - Desenvolvimento Digital