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SEMINÁRIO DIÁLOGOS DE CINEMA DISCUTE VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

23.9.2016
SEMINÁRIO DIÁLOGOS DE CINEMA DISCUTE VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

As mulheres foram maioria no Seminário Diálogos de Cinema, realizado no Kubitscheck Plaza Hotel, na tarde de quarta-feira, durante o 49º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO. O mote da discussão foram os filmes exibidos na terça na mostra paralela do Cine Brasília, Câmara de espelhos, de Dea Ferraz e o Precisamos falar sobre assédio, de Paula Sachetta.  

As duas cineastas trataram de temas femininos usando o cinema de dispositivo. Dea Ferraz, realizadora de Pernambuco, reuniu homens voluntários em um estúdio em forma de uma caixa fechada que passaram a discorrer sobre a imagem que eles fazem das mulheres e a relação que mantêm com elas sejam as esposas, mães, filhas ou mulheres desconhecidas.

O documentário, Câmara de espelhos, revela o machismo dos homens, recrutados por meio de anúncio colocado no jornal. Em nenhum momento os depoentes tiveram contato com a cineasta, somente com a equipe de produção. “Os homens sabiam sobre o que era o filme, deram autorização de filmagem, mas eu impus como regra não estar em contato com eles nem antes, nem durante e nem depois das filmagens”, revelou a cineasta.

As assustadoras revelações feitas pelos personagens afetaram a vida pessoal da cineasta. “Eu passei a ter medo de andar na rua. Eu tive de me afastar do material. Estava me fazendo muito mal. Eu passei a odiar aqueles personagens, odiar aqueles homens. Eu não queria odiá-los e precisei me afastar”, relatou Dea Ferraz.

A realizadora, porém, quer evitar a demonização de seus personagens. “Não quero em nenhum momento que pensem que eles são a personificação do mal. O machismo está naturalizado naquelas falas. Nós, mulheres, escutamos aqueles comentários o tempo inteiro”, salientou.

Segundo a realizadora, a ideia é que ao retratar os homens como objetos de observação no cinema, o filme possa ajudar os próprios homens a enxergarem seus reflexos no espelho. “E não sei como os homens recebem esse filme. Acho que rola uma inquietação, uma espécie de raiva. Eles pensam ‘Que filha da puta essa mulher que botou os caras lá!’ Eles não estão acostumados a serem observados. Eu não sei como vai ser com eles. Gostaria que eles reconhecessem como um exercício de evolução”, pondera.

A produção de São Paulo, Precisamos falar sobre o assédio, tratava justamente dos abusos sofridos por mulheres reais por meio de depoimentos recolhidos no meio da rua, dentro de uma van. Foram cinco dias de filmagens na cidade de São Paulo e dois dias no Rio de Janeiro. “O nosso estúdio era essa van, toda preta, onde ninguém entrava, apenas as depoentes. Não houve nenhuma forma de interlocução com essas personagens. Elas entravam no veículo e contavam o que elas queriam narrar. Depois na produtora é que assistimos as gravações e filtramos as histórias que entraram no filme”, explicou a diretora Paula Sachetta.

Caso as mulheres preferissem, a identidade era preservada com o uso de máscaras criadas por uma artista plástica. “Nós queríamos aproveitar o momento em que vivemos, a Primavera Feminista, e fazer um filme que dialogasse com as campanhas virtuais que mobilizaram muitas mulheres e homens em torno do assédio feminino”, explicou a diretora referindo-se as hashtags #primeiroassédio e #meumelhoramigo.

Para que as mulheres não saíssem da experiência sem qualquer tipo de apoio psicológico, a produção firmou uma parceria com a Secretaria Municipal de Mulheres de São Paulo, que manteve uma conselheira capaz de direcionar mulheres para assistência psicológica, jurídica ou policial.

Nada disso, porém, livrou a realizadora do choque vivido pela escuta de tantos relatos fortes. As histórias chocantes narradas no confessionário feito pelo filme mexeram com a diretora. “Eu chegava em casa, comia e chorava. Algumas vezes me senti feita em pedacinhos”, revelou.

O filme deverá ser exibido em escolas e no meio da rua de grandes cidades brasileiras para ampliar o alcance do discurso abordado pela fita. Outras mulheres que desejarem ter suas histórias narradas pelo projeto podem postar seus depoimentos no site www.precisamosfalardoassedio.com.

O encontro foi mediado pela cineasta, professora e pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB), Tânia Montoro, que classificou o encontro como uma iniciativa necessária dentro da programação do encontro cinematográfico. “O Festival precisa abordar esses temas. Somos mulheres, fazemos cinema, fazemos esse festival e nosso espaço tem que ser ampliado”, acredita. 

 

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