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Segundo debate de filmes das mostras competitivas discute extermínio e desapropriação indígenas

23.9.2016
Segundo debate de filmes das mostras competitivas discute extermínio e desapropriação indígenas

 

Auditório lotado, com direito à presença de Álvaro Tucano (diretor do Museu do Índio e importante liderança indígena), na manhã da sexta-feira no Kubitschek Plaza Hotel, para a realização do segundo debate de filmes das mostras competitivas do 49º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO. Em foco, o longa-metragem Martírio, dirigido por Vincent Carelli, criador do celebrado projeto Vídeo nas Aldeias. Sob a mediação da jornalista Maria do Rosário Caetano, Vincent e Tonico Benites Ava Guarani Kaiowá discorreram sobre passado, presente e futuro das causas indígenas no Brasil.

 

Martírio foi o único filme em competição exibido na noite de quinta-feira, no Cine Brasília. Com 160 minutos de duração, o longa discorre sobre a tragédia vivida pelo povo Guarani Kaiowá, desde os tempos do Império e até os dias atuais. Vincent Carelli faz uma narração pessoal, revelando todo seu conhecimento, proximidade, paixão e compaixão pelo tema. O espectador compreende como os indígenas guaranis vêm sendo expulsos, expropriados e levados quase à indigência pela ganância de grandes empresas e, mais recentemente, pelo agronegócio.

 

O filme apresenta a questão Guarani Kaiowá com riqueza de depoimentos, imagens de arquivo e testemunhos recentes, não só dos indígenas, mas também de fazendeiros e políticos. O filme de uma vida, se poderia dizer, já que todo o material vem sendo colhido ao longo de várias décadas, como explica o indigenista Vincent Carelli: “Eu me lancei nesta última etapa do filme – porque no passado eu fiz muitos registros -, em plena agressão, em pleno lobby poderoso da bancada ruralista. E estes integrantes da bancada ruralista são personagens chave da história. Quando eu descobri o material do qual eles se orgulham tanto, os discursos que eles postam no YouTube, decidimos usar, já que são pessoas públicas e em nome da transparência. O contraponto era mais do que necessário para mostrar o embate. Eu nunca conheci um povo mais resistente do que o Guarani. Uma família guarani é um povo! Há 500 anos, guardam a língua, a religião, as tradições. É o povo mais resistente que eu conheço no embate com a parte mais conservadora, mais retrógrada do País”.

 

Martírio é o segundo filme de uma trilogia que teve início com Corumbiara, premiado documentário de 2009, em que Carelli aborda o genocídio dos índios isolados. Segundo afirma o realizador, Martírio apresenta o genocídio contemporâneo. E o terceiro, já em fase de produção, é Adeus Capitão, em que o diretor oferece um painel do processo de indenizações de indígenas da Amazônia. “O Brasil só investe quando tem uma questão geopolítica envolvida. Hoje, todo o dinheiro é canalizado para cooptar e possibilitar o boom de empreendimentos na Amazônia. Os índios Gavião estão no meio desse processo. Nós os ajudamos a procurar o Estado e isso acabou gerando uma indústria de indenizações”, explica Vincent Carelli, confessando: “Este é um filme difícil pra mim, por ser uma questão muito delicada. Mas eu percebo que as novas gerações estão revendo isso e dizendo coisas que eu não poderia dizer”.

 

O longa-metragem atual foi feito com financiamento coletivo. Uma rede de mil pessoas se formou, de acordo com o indigenista, e acabou gerando um esforço inicial de difusão. Mas, para Carelli, a visibilidade de um Festival como o de Brasília proporciona oportunidade de o filme e a própria questão saírem do gueto etnográfico. “A nossa missão é atravessar fronteiras, expandir a consciência nacional. As pessoas podem pensar que aquela é uma questão já registrada, que não ocorre mais, mas na semana passada mesmo, novos ataques provocaram a morte de mais de uma dezena de indígenas”, conta o diretor.

 

Martírio volta no tempo e analisa a questão territorial dos índios Guarani Kaiowá, desde o período do Brasil Colônia, quando os índios foram sendo empurrados cada vez mais para o oeste do País, dos textos dos primeiros viajantes que apresentam os guaranis como gentis e pacíficos, passando pelo processo de civilização e pela fase da grande indústria de Erva-Mate (quando os índios eram usados como mão-de-obra capacitada e barata), até chegar ao desmatamento geral e à miséria. E, em sua análise, Carelli não poupa nem o Marechal Rondon, o lendário sertanista, e seu projeto positivista de civilizar os índios. “É claro que é preciso olhar o personagem dentro do contexto histórico em que ele viveu, mas eu quis fazer uma releitura do que significou aquele processo para os dias atuais”, avalia o realizador.

 

INVISIBILIDADE E ABANDONO

 

Mostrar o passado para compreender o presente. Esta foi uma das propostas do longa-metragem, como explica Vincent Carelli: “Em cada momento histórico, esse processo de exclusão e invisibilidade persistiu. Ou se combatia com armas os índios que resistiam ao processo civilizatório ou se esquecia dos índios mansos. Eles foram sistematicamente esquecidos nesse processo histórico”. O cineasta e indigenista considera que há apenas uma forma de a questão ser analisada de forma neutra: “É um problema muito complexo, aparentemente insolúvel, que deveria ir para um tribunal internacional”.

 

Ao lado de Vincent Carelli estava o índio Tonico Benites Ava Guarani Kaiowá, mestre e doutor em Etnologia, Antropologia e História pela UFRJ, atualmente pesquisador do Museu Nacional e professor da Universidade Federal da Grande Dourados. Segundo revelou Vincent, Tonico é autor de uma tese sobre a forma como os índios têm se organizado para o processo de retomada de suas terras ao longo dos anos. O trabalho é único no Brasil e uma referência para quem deseja se aprofundar mais no assunto.

 

Em sua fala, Tonico frisou diversas vezes a maneira insensível com que a questão indigenista é tratada pela grande mídia. “Eu tenho me dedicado a dar mais visibilidade a este assunto desde que terminei minha tese e voltei para minha região, constatando o que estava acontecendo. A grande mídia não mostra, mas está havendo um genocídio. Eu tenho usado as redes sociais para sensibilizar a população”, revelou, lembrando o episódio em que vários usuários do Facebook fizeram seus nomes serem acompanhados do sobrenome Guarani-Kaiowá, como forma de apoio à causa.

 

Tonico Guarani reclama que paira sobre a imagem do índio a pecha de mentiroso: “Quando falávamos que o nosso povo estava sendo assassinado, diziam que índio inventa, mente e os próprios índios se matam. Mas a gente sabe que não é o povo brasileiro todo que quer exterminar os guaranis. É só uma parcela, mas são aqueles que detêm o poder para armar, matar e expulsar”, explica o líder. E reforça: “O Brasil tem que acertar uma dívida com o povo indígena, não só com os guaranis. O País está se esquivando de acertar com a gente a dívida histórica. E continua com o massacre”. Carelli acrescenta: “No Brasil, tem duas categorias de índios, sempre na perspectiva de fim: os índios que ainda são índios e os que já não são mais. No entanto, o índio quer afirmar: sou índio, sou contemporâneo e quero participar da modernidade, sem prejudicar o progresso do País”.

 

 

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