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Primeiro debate mostras competitivas

22.9.2016
Primeiro debate mostras competitivas

 

Na manhã desta quinta-feira, no Salão Caxambu do Kubitschek Plaza Hotel, realizou-se o primeiro debate dos filmes que integram as mostras competitivas do 49º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO. Sob a mediação do jornalista mineiro Marcelo Miranda, sentaram-se à mesa os diretores e equipes dos curtas Ótimo Amarelo e Quando os dias eram eternos, e do longa-metragem Rifle.

 

Curta baiano, rodado pelo coletivo CUAL – Coletivo Urgente de Audiovisual, dirigido e protagonizado por Marcus Curvelo, Ótimo Amarelo coloca em foco as contradições da cidade de Salvador, a partir do projeto de revitalização do bairro do Rio Vermelho. Com narrativa feita em off, o filme constrói correlações entre a volta do jogador Bebeto ao time de futebol do Vitória, em 1997, as obras do Rio Vermelho e um curioso conceito escolar que dá título ao curta. “Ótimo Amarelo aconteceu comigo quando criança. Na minha escola, tinha esse conceito que era acompanhado das cores e o Ótimo Amarelo era o mais baixo. Fiquei pensando nessa ideia de que a gente só seria alguma coisa na vida se saísse daquele lugar”, revelou o diretor.

 

Partindo de experiências pessoais, Marcus Curvelo disse ter concebido o roteiro anteriormente, partindo da proposta de colocar em cena um rapaz “ótimo amarelo”, que volta à sua cidade para reencontrar os amigos bem sucedidos. Mas afirma que se manteve aberto para inserir fatos que observava na realidade e que dialogavam com o filme. São exemplos disso a sequência da escavadeira retirando areia da praia do Rio Vermelho e o comício de ACM Neto, prefeito de Salvador. “Queria abordar essas contradições, da cidade “feliz”, da miséria, do lugar sempre transitório”.

 

Foi também a experiência pessoal que inspirou o roteiro do curta de animação Quando os dias eram eternos. De acordo com o diretor, Marcus Vinícius Vasconcelos, o filme começou a nascer no momento em que perdeu sua mãe. Ele conta: “Este filme nasceu e morreu muitas vezes. Desisti de fazê-lo em vários momentos, porque parte de uma experiência que vivi e ainda vivo”.

 

Quando os dias eram eternos mostra o retorno do filho à casa materna, para acompanhar os últimos dias de vida da mãe. Construído com traços fluidos, que se constroem à medida que as cenas acontecem, o filme pensa o movimento como poética e se inspira no butô do mestre japonês Kazuo Ohno, como explica o diretor: “Já faz um tempo que eu pesquiso a dança contemporânea como possibilidade de narrativa criativa da animação. O Kazuo eu conheci há muito tempo, num espetáculo que fui assistir com minha mãe. Ele tem um discurso muito próprio de entender a vida e a morte, a transitoriedade e como você carrega consigo as relações de seus ancestrais. Decidi fazer um retrabalho sobre a obra de Kazuo Ohno”.

 

Segundo informa Marcus Vinícius Vasconcelos, o traço da animação foi construído para refletir o processo obsessivo do gênero, em que cada frame é trabalhado exaustivamente. No caso de Quando os dias eram eternos, não há um só frame igual ao outro. “É a minha dança ali. Cada frame é uma busca de memória, o registro de uma abstração que vai vibrando uma memória”. O realizador revelou que o filme estreou na mostra paralela do Festival de Hiroshima e deve ser levado a outros festivais e espaços do Japão.

 

TENSÃO E INVASÃO

 

Primeiro longa a se exibido na mostra competitiva que este ano terá nove títulos disputando os troféus Candango, Rifle é uma produção gaúcha, dirigida por Davi Pretto, ambientada no interior do Rio Grande do Sul, quase na fronteira com o Uruguai, e que mostra a invasão do campo pelos grandes proprietários, que estão expulsando os pequenos produtores do local. A relação com o longa Aquarius, de Kléber Mendonça, foi imediata. Ambos foram rodados em 2015 e apresentam situações de tensão e resistência de pequenos contra poderosos. Mas o diretor fez questão de esclarecer: “O filme está sendo construído desde 2010, quando Richard Tavares teve a ideia do roteiro”.

 

Segundo relatou Richard Tavares, a trama surgiu de um longo processo de observação: “A gente estava voltando de um trabalho no interior e eu fiquei observando as casinhas dessas pessoas. Eu nasci no interior, não numa região tão isolada quanto a que mostramos na tela, mas fomos vendo que esses lugares estavam se esvaziando. Conversávamos com as pessoas para saber para onde elas iriam, se iriam para as cidades e o que fariam lá”.

 

Para Davi Pretto, o filme representa a própria história de sua produtora, a Tokyo Filmes: “É um filme que passou por muitas visitas, viagens, processos. Representa um ciclo fechando e outro que se abre. Muito significativo para nós. Desde o começo sentíamos que tinha muita intensidade, angústia, uma situação rural que nos incomodava. A gente se interessou por essas histórias, temos parentes que vivem no interior e queríamos fazer essa jornada”.

 

O desenho de som do longa-metragem é um capítulo à parte. No filme, o som é um protagonista, usado para criar tensão e representar as angústias por que passa o personagem central. “Me interessava criar estranheza com o som, inserir sons que criassem esse desconforto vivido pelo personagem, representar a invasão. A semelhança com a linguagem do western nós percebemos depois, quando tivemos o personagem errante, sem casa, misterioso, a violência do campo, a luta pela terra, que são característicos do gênero”, conta o diretor.

 

Rifle é protagonizado por um elenco de não-atores, escolhidos dentre os moradores da própria região. A intenção sempre foi utilizar o embrião ficcional e criar pontos de contato com a realidade. Davi Pretto divertiu a plateia presente ao debate ao relatar o trabalho hercúleo para chegar ao elenco final. “Na época, havia o relato de um casal de Porto Alegre que estava na região sequestrando jovens para serem levados a se prostituir na cidade. Então, quando chegávamos, os moradores nos recebiam com muita desconfiança. Levamos vários meses para provar ao próprio Dione (Ávila de Oliveira, protagonista da fita) que estávamos falando sério quando dizíamos que queríamos fazer um filme”.

 

O elenco foi trabalhado sem receber um texto final, usando o processo de estímulo à abordagem de determinados temas e deixando a conversa fluir. “Levamos a câmera várias vezes para a casa deles, para que se ambientassem com o equipamento, com a imagem deles na tela. Não contava a história de cada cena, queria que eles pudessem improvisar e manter a surpresa na atuação”, conta o diretor. Deu certo, segundo confessa o protagonista, Dione: “Eu não sabia que tinha talento para ator. Mas a equipe estava sempre unida e eu fiquei muito à vontade, como se estivesse na minha família”.

 

 

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