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Palestra de Kleber Medonça atrai centenas de pessoas

27.9.2016
Palestra de Kleber Medonça atrai centenas de pessoas

O cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho comandou uma palestra sobre Direção Cinematográfica no auditório Minas Gerais do Hotel Kubitscheck Plaza, na tarde de segunda-feira. O espaço ficou completamente lotado por profissionais e estudantes de cinema, curiosos para ouvir as ideias cinematográficas do diretor. Mendonça esmiuçou sequências inteiras de seu último longa-metragem, Aquarius, único brasileiro selecionado para a mostra competitiva do Festival de Cannes deste ano.

A trama da película trata da especulação imobiliária na cidade de Recife pelo ponto de vista de Clara (Sônia Braga), uma jornalista e escritora moradora de um dos últimos prédios remanescentes dos anos 1970 na Avenida de Boa Viagem, justamente o edifício Aquarius. A protagonista sofre o assédio de uma construtora imobiliária que pretende demolir o prédio para construir um condomínio de luxo. 

A espacialidade é determinante para a narrativa da película. O apartamento de Clara é construído cinematograficamente como um lugar prestes a ser invadido. “O território do filme deveria ficar muito bem delimitado. Na sequência em que os homens da construtora visitam o apartamento e ela não os convida a entrar eu queria demonstrar aquela história do ‘vampiro nunca entra na sua casa se o dono não permitir’”, esclareceu o cineasta e roteirista sobre os detalhes que aparecem na tela e muitas vezes não são percebidos pelo público.

O apartamento do qual a protagonista não quer se desapegar está apinhado de livros, discos de vinil e recordações de toda uma vida vivida no mesmo endereço. “Um dos temas do filme é a documentação da história dessas pessoas, coisas guardadas, memórias. A sequência em que os personagens revisitam os álbuns de família foi toda desenhada para servir como exposição de documentos visuais e sonoros”, explicou.

Parte dos espectadores que viram o filme sentem as imensas contradições no personagem vivido pela atriz Sônia Braga. A jornalista Clara é uma pequeno-burguesa idealista que mantém uma relação de proximidade com a empregada, uma moradora da favela Brasília Teimosa que perdeu seu filho em um atropelamento. Ao mesmo tempo em que Clara se aproxima dos pobres, ela mantém elos de intimidade com jornalistas poderosos do Recife. “Existe sim uma parcela de pessoas que não querem ver, nem entender a Clara como uma personagem contraditória. Eles têm todo o direito de não sentir simpatia por ela. Às vezes ela é chata. Às vezes é arrogante. A personagem é uma burguesa que defende coisas normalmente associadas à esquerda. Tem muita gente que confunde isso porque vivemos um momento muito acirrado ideologicamente”, acredita.

O cineasta se diz consciente das polêmicas que contornaram o lançamento do filme feito durante o festival francês. “As pessoas estão muito conscientes de detalhes e camadas que o filme apresenta. Há uma reação muito forte ao filme. Um boca a boca que tem nos ajudado bastante nas discussões feitas até o momento. Se eu pudesse voltar numa máquina do tempo para o dia 19 de maio faria tudo igual”, afirmou o cineasta referindo-se ao protesto pacífico feito pela equipe durante a passagem pelo tapete vermelho em Cannes.

 

 

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